Boicote o veganismo

Os direitos dos animais apenas começam com a sua dieta

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Ações, não palavras.

-Emmeline Pankhurst1, fundadora da Women’s Social & Political Union, 1903

Torne-se vegano.”

Todos nós ouvimos essas palavras mais vezes do que podemos contar.

A lógica por trás delas é simples. Animais não-humanos, como os animais humanos, têm sensibilidade à dor e ao prazer, vidas sociais e emocionais sofisticadas, e uma profunda ânsia por liberdade e bem-estar. Em virtualmente todas as características moralmente relevantes, eles são nossos iguais.2 Porém bilhões desses indivíduos são torturados e mortos todo ano para alimentação, vestuário e pesquisa. A maneira óbvia de parar a matança, nos dizem, é “tornando-se vegano” – evitando carne e laticínios, encontrando substitutos ao couro, etc. Quando convencermos todo mundo a “tornar-se vegano”, segundo a visão convencional, a exploração institucional dos animais acabará.

Mas essa lógica aparentemente simples é falha. Na verdade, o conceito de veganismo é prejudicial ao movimento dos direitos dos animais. E se você leva a sério trabalhar pela libertação animal, a primeira coisa que você deve boicotar não é nem carne nem laticínios nem ovos. A primeira coisa que você deve boicotar… é o veganismo.

Essa é uma frase provocativa, então deixe-me tornar claro o que eu não estou dizendo. Primeiro, não estou dizendo que comer animais é ético. Não é ético, pela mesma razão por que o canibalismo humano não é ético. Segundo, não estou fazendo uma reclamação sobre a excessiva pureza vegana.3 Embora seja verdade que muitos veganos “nível 5” são provavelmente motivados pela pureza pessoal em vez de princípios éticos, aqueles que mantêm um estilo de vida mais rigoroso que o resto de nós (por exemplo, evitando bicicletas e carros por causa do ácido esteárico na borracha) como parte da ética liberacionista merecem ser elogiados. Terceiro, eu não estou meramente dizendo que veganismo é uma palavra falha. Na verdade, o “veganismo” não seria problemático se fosse uma mera descrição dietética, removida de seu significado como um objetivo do movimento. Porém duvido que um uso tão restrito do termo seria possível, dada sua proeminência no movimento dos direitos dos animais.

O que, então, eu estou dizendo? Em resumo, que os direitos dos animais apenas começam com a sua dieta. A opressão de espécie, como a opressão racial na era pré direitos civis, ou a opressão de gênero na era pré-feminista, silenciosamente penetra toda indústria, instituição e norma cultural em nossa sociedade. Remediar o problema é deste modo um projeto desafiador e abrangente – exigindo mais criatividade, mais compromisso e mais militância do que o establishment vegano predominante sugere. Se o movimento pela libertação animal deve ser bem-sucedido, ele precisa ser um movimento de ação social e política, não somente de palavras e dietas. E pressionar os atores do movimento para esse tipo de ação baseada em princípios – não para o veganismo – é que deve ser nosso principal objetivo.

Vamos partir essa ideia numa série de mordidas menores.

Mordida 1: O veganismo não salva vidas nem reduz o sofrimento.

Tivemos que destruir a aldeia para salvá-la.

-Oficial não identificado, Massacre de M Lai, 1968.

Nos dizem frequentemente que todo vegano pode esperar salvar centenas ou mesmo milhares de animais em sua vida. No sentido literal, isso é claramente errado. Cada uma de nossas escolhas de consumo independentes não tem virtualmente nenhum impacto sobre a pecuária. Na verdade, exceto se você estiver comprando seus produtos de origem animal de um pequeno produtor local, ninguém sequer notará quando você “tornar-se vegano.” Os animas hoje são criados por corporações enormes em instalações industriais. São necessários milhares de consumidores para um pontinho sequer aparecer no seu radar econômico.

Você poderia perguntar: “Não estamos salvando vidas no conjunto? Se 1% da população é vegana, isso não significa que 1% dos animais são resgatados da tortura e da morte?” A resposta, novamente, é “não.” A curto prazo, uma redução na demanda simplesmente conduz a uma queda no preço de mercadoria dos animais. Se há superoferta, os animais de “excesso de estoque” não são libertados nem ganham uma vida feliz. Em vez disso, esses animais ainda são torturados e mortos, e possivelmente de maneira ainda mais brutal, por exemplo, se eles são exportados para um mercado estrangeiro ou vendidos para fabricação de ração animal. A verdade lamentável é que o proprietário de escravos não tem nenhum incentivo para se importar com um escravo sem valor. Considere o que acontece a galinhas, por exemplo, depois que seu valor econômico é comprometido: são enterradas ou queimadas vivas.4

É claro, a longo prazo, é possível que menos animais sejam criados devido ao veganismo, já que os proprietários de escravos terão os incentivos para a produção diminuídos.5 Mas menos reprodução não significa salvar vidas ou aliviar o sofrimento. Em vez disso, isso simplesmente previne animas de vir à existência. Se pensamos que o veganismo “salva vidas,” por motivos de existência, também devemos dizer que o governo chinês salvou vidas ao esterilizar à força seus cidadãos. Afinal, os bebês prevenidos de nascerem teriam morrido no fim de suas vidas, e frequentemente em condições miseráveis.

A verdade quanto a isso é que uma vida que não existe não pode ser salva. E por trás da causa de varrer o oprimido da face da Terra há um perverso movimento de justiça social. Considere: os ativistas pelos direitos civis iriam sugerir o despovoamento das minorias, como uma solução à injustiça do racismo institucional? Os ativistas antiescravistas do século XIX iriam sugerir a redução da reprodução dos escravos, como uma solução ao problema da escravidão humana? Esse tipo de posição parece mais convincente para os oponentes da justiça social que para seus apoiadores.6

Uma consideração final: os animais são tratados como mercadorias, abusados e mortos em todo lugar na nossa sociedade. Por exemplo, a agricultura envolve o uso e a matança de inúmeros animais para fertilização, aragem, consumo de energia e remoção de habitats. As mudanças climáticas competem com a pecuária em seu impacto provável à vida não-humana, tanto quantitativa quanto qualitativamente.7 O veganismo como não-violência é então, na melhor das hipóteses, um mito; na pior, uma fraude corporativa maliciosa. O veganismo, mesmo quando eficaz, meramente substitui um conjunto de vítimas abusadas e mortas por outro. Precisamos fazer melhor que isso se esperamos ver um mundo onde a libertação animal seja realidade.

Mordida 2: O veganismo concebe o debate dos direitos dos animais a favor de nossos oponentes.

A justiça de um homem é a injustiça para outro; a beleza de um homem é a feiura para outro; a sabedoria de um homem é a tolice para outro.

-Ralph Waldo Emerson, Essays, 1841

No recente debate sobre a proibição do foie gras em Chicago, oponentes da proibição, como o prefeito Richard Daley, focaram em como a proibição invadiria as “escolhas” dos consumidores. Concebida desta forma, a posição de Daley faz sentido perfeitamente: por que algum de nós, numa sociedade liberal, se preocuparia com o que outros colocam em suas bocas? Por outro lado, os apoiadores da proibição focaram na inerente “brutalidade” da alimentação forçada. E quando confrontadas com imagens das condições precárias e da cruel alimentação forçada, 80% da população aprovou a proibição.8 Por isso, a batalha contra o foie grass foi, num grau significativo, uma batalha sobre concepção9 – devemos focar na tolice de interferir em “escolhas alimentares”10, ou na “brutalidade” das granjas industriais e da alimentação forçada?11

O mesmo raciocínio, contudo, pode ser feito quanto à luta por direitos dos animais em geral. É um movimento sobre escolhas e dietas, ou sobre crueldade e violência? Quando examinamos como a mensagem “torne-se vegano” concebe o debate dos direitos dos animais, vemos como caímos nas mãos de nossos oponentes. O conceito de veganismo necessariamente foca no humano que escolhe um estilo de vida particular. Esse estilo de vida pode ser instruído por princípios éticos, sem dúvida. Mas a concepção foi definida – o debate é sobre escolhas e interesses humanos, em vez de direitos dos animais e brutalidade. A resposta comum e desdenhosa que recebemos ao fazer propaganda – “mas eu gosto de comer carne” – é um produto direto dessa concepção. “Eu gosto de comer carne” é uma resposta plausível se nossa mensagem é “mude sua dieta”; é significativamente menos eficaz quando nossa mensagem é “pare de matar animais.”

Mordida 3. O veganismo confunde uma mensagem potencialmente poderosa.

Tão-somente trazemos à superfície a tensão oculta que já existe. Descortinamo-la, para que possa ser vista e tratada. Como um furúnculo que não pode ser curado enquanto estiver coberto, mas que deve ser exposto com toda a sua feiura aos remédios naturais do ar e da luz, a injustiça tem de ser desvendada, com toda a tensão que sua exposição gera, à luz da consciência humana e ao ar da opinião nacional, antes que possa ser curada.

-Martin Luther King em resposta aos “moderados”, Carta de uma prisão em Birmingham, 1963

Uma resposta ao problema da concepção é dizer que o veganismo não precisa ser concebido como uma escolha alimentar humana, se o promovermos como um princípio moral público em vez de uma opção de vida pessoal. Mas isso simplesmente traz outro dos problemas do veganismo à tona: o conceito é inerentemente confuso. “Veganismo” tem um espantoso número de definições e motivações.

Embora a base lógica inicial do veganismo envolvesse compaixão pelos animais (mas, visivelmente, não igualdade ou justiça), foi, no entanto, concebida como uma dieta em vez de um princípio político.12 O veganismo hoje retém esse foco alimentar, mas foram acrescentadas tantas justificativas quanto o número de veganos que existe. Sob a égide vegana, há os veganos pelo meio ambiente13, os veganos pela saúde14, os veganos adeptos do freeganismo15, os veganos pró-especismo16, os veganos “quando conveniente”17 e os veganos pela compaixão18. Essa miscelânea de princípios e motivações torna a “mensagem vegana” completamente incoerente.

A pior forma de confusão, entretanto, ocorre quando o veganismo se torna sua própria justificativa. Muitos defensores nominais dos direitos dos animais vivem suas vidas diárias com uma lista de ingredientes “proibidos”, mas falham ao internalizar adequadamente as razões por que, em primeiro lugar, aqueles ingredientes devem ser proibidos. Quando perguntados por que se recusam a comer queijo, por exemplo, eles simplesmente dizem “porque eu sou vegano.”

Ao fazerem isso, eles traíram os animais e o movimento de duas maneiras. Primeiro, eles se esquivaram de uma oportunidade para oferecer uma mensagem clara e convincente a favor dos animais. Se o conceito de veganismo fosse eliminado, os defensores dos direitos dos animais perderiam seu atalho retórico (“porque eu sou vegano”), e seriam forçados a oferecer uma mensagem poderosa, porém mais desafiadora, sobre a injustiça e a desigualdade – por exemplo, “porque matar inocentes é errado”; “porque explorar alguém só porque é diferente de nós não é justo”; etc. Sem o veganismo, o foco da conversação passaria a ser os animais e suas vidas, em vez de humanos e suas batatas fritas.

Segundo, quando “porque eu sou vegano” torna-se uma resposta habitual e impensada, os defensores retiram-se – social, intelectual e emocionalmente – de sua motivação para boicotar produtos de origem animal. Eles permitem-se ignorar o fato que todo pedaço de carne é assassinato, que todo ovo é opressão e que seu “estilo de vida vegano” não é uma escolha pessoal, mas um imperativo moral e político. A mensagem transmitida por seu boicote pessoal torna-se, não apenas confusa, mas sem conteúdo. Finalmente, eles podem perder de vista porque “tornaram-se veganos” em primeiro lugar e abandonar o movimento inteiramente. (Para exemplos desse processo, veja aqui19, aqui20 e aqui21, e considere os exemplos de Gwyneth Paltrow22, Julia Stiles23, ou Nina Planck24).

Como as coisas seriam diferentes, se os defensores dos animais explicassem e defendessem suas convicções diretamente e honestamente, em vez de usar a escapatória do “porque eu sou vegano”.

Para mais sobre a importância da claridade nos movimentos de justiça social, ver:

http://files.meetup.com/482977/Slippery%20slope%2C%20or%20sticky%20staircase.pdf

Mordida 4: O veganismo compromete a formação de comunidades

Eles generalizam, eles atiram para o ar, eles não perturbam o repouso nem ferem a complacência do pecador. “eles não fizeram nenhuma diferença entre o sagrado e o profano, nem mostraram diferença entre o imundo e o limpo.” Assim a livre investigação foi suprimida, e o medo universal criado, e a língua do mais corajoso silenciada, e o sono da morte preso sobre a nação.

-William Lloyd Garrison sobre o establishment antiescravista predominante, Thoughts on African Colonization, 1832

Mas e quanto à formação de comunidades? Mesmo se o veganismo conceber pobremente o debate, e confundir a mensagem dos direitos dos animais, talvez tenha algum valor na formação de comunidades relacionadas aos direitos dos animais. Após tais comunidades alimentares se desenvolverem, pode ser argumentado, então os ativistas terão a convicção para defender os animais com princípios.

O primeiro problema com esse argumento é que o veganismo não constrói uma comunidade relacionada aos direitos dos animais; ele a enfraquece ao destruir qualquer identidade coletiva coerente. Pesquisas sociológicas demonstraram que compromissos ideológicos ambíguos e conflitantes são uma receita para a erosão num movimento.25 E embora uma “vegana pelos direitos dos animais” tenha tanto em comum com uma “vegana pela saúde” quanto esta tem com um seguidor da dieta de Atkins, ambas estão incluídos na “comunidade vegana”. Isso curto-circuita o processo de reforço social e de formação de identidade que é necessário para inspirar minorias a enfrentarem vigorosamente maiorias poderosas. Na verdade, pesquisas sociológicas sugerem que toda pessoa que não é defensora dos animais com quem temos vínculos pessoais está prejudicando o ímpeto do movimento.26 Formar uma comunidade de pessoas que gostam de cupcakes veganos, em suma, irá meramente nos inspirar a fazer mais cupcakes veganos.

Mesmo entre aqueles que têm uma noção fraca sobre ética animal, o veganismo obscurece diferenças fundamentais. Um vegano que se abstém de produtos de origem animal por motivos de “compaixão”, por exemplo, adotou um conjunto diferente de convicções políticas que um ativista pelos direitos dos animais. “Compaixão” é um sentimento particular que não pode, por razões cognitivas, ser mantido para além de uns poucos indivíduos imediatamente em volta de nós (cientistas sociais determinaram que humanos têm um máximo de 150 relações sociais genuínas27). Ativistas pelos direitos civis não imploraram aos racistas por compaixão precisamente porque eles viram a segregação como uma afronta fundamental à justiça, não uma mera falta de benevolência. Porém a vasta maioria dos veganos defende, no melhor dos casos, a compaixão pelos escravos não-humanos28 – não igualdade ou justiça. Com isso como base, como pode uma comunidade vegana transformar-se em um movimento por justiça social?

Mas vamos supor, contrariando os fatos, que isso seja possível. Isso ainda nos deixa com um segundo problema: o veganismo como formação de comunidade é uma experiência fracassada. A defesa do vegetarianismo existe há milhares de anos, e em organizações formais nos Estados Unidos desde a metade do século XIX. Contudo, as melhores evidências mostram que a percentagem de vegetarianos nos Estados Unidos permanece estática há décadas,29 e recentemente está diminuindo em algumas áreas da Europa.30 Embora focar numa comunidade vegetariana ou vegana, em oposição a uma comunidade dos direitos dos animais, possa maximizar nossos números em algum ponto fixo no tempo, clubes alimentares nunca desencadearam o crescimento dramático requerido para um movimento de justiça social se firmar.

Por outro lado, comunidades organizadas em torno de um sistema de convicções justas, e contra um adversário social e político comum, podem experimentar um crescimento explosivo. William Lloyd Garrison publicou o primeiro número do The Liberator com apoio de uns poucos assinantes negros em 1831.31 E embora sua condenação daqueles que apoiavam a escravidão tenha sido ignorada ou ridicularizada por aqueles no mainstream (o premiado historiador Henry Mayer escreve que outros na comunidade antiescravista mainstream inicialmente acharam o ativismo de Garrison “estridente, estranho e contraprodutivo”32), o poder e a integridade de sua mensagem atraíram uma comunidade de ativistas pequena mas com princípios – uma comunidade resistente à erosão social. Dentro de uma década mais de mil sociedades abolicionistas foram formadas em todo o país;33 em 1865 a escravidão havia acabado.

A mensagem dos direitos dos animais não é menos convincente que a chamada de Garrison pelo fim da escravidão humana. E ela também pode experimentar crescimento explosivo, mas apenas se os ativistas tiverem convicção suficiente para defender os escravos não-humanos tão vigorosa e consistentemente quanto Garrison defendeu os escravos humanos.34

Mordida 5: O veganismo ignora nossas contribuições sociais e políticas para a opressão de espécie

Precisamos ser a mudança que queremos ver no mundo.

-Mahatma Gandhi

O movimento dos direitos dos animais, como outros movimentos de justiça social, aspira em última análise por uma transformação social e política. Contudo, o veganismo como estratégia do movimento está focado em tomadas de decisão econômicas e privadas. Como observado acima, uma redução na demanda não tem nenhum impacto direto na matança ou sofrimento dos animais. Assim, se o veganismo tem algum valor para o movimento, deve ser por causa da afirmação social ou política que ele transmite, não por causa de suas consequências econômicas insignificantes.

Mas se admitirmos que o veganismo só é importante por seus efeitos sociais e políticos, então por que não focar a atenção do movimento em todas nossas escolhas sociais e políticas, em vez de apenas aquelas que envolvem nossas dietas? Escolhas alimentares e de consumo, afinal, compreendem uma pequena porção de nossos comportamentos sociais. E o consumismo é um método desajeitado para transmitir uma mensagem política; uma alimentação sem carne não necessariamente implica em defender os direitos dos animais mais do que uma alimentação sem glúten implica em defender os direitos do trigo.

Um defensor do veganismo poderia dizer que ignorei uma importante dimensão política do veganismo; ele é um boicote, e não só um estilo de vida baseado no consumo. O veganismo, sob esse ponto de vista, é uma afirmação de nossa recusa em apoiar indústrias opressoras.

Existem dois problemas com esse ponto de vista. Primeiro, lembre-se das questões levantadas nas partes 3 e 4: a natureza confusa da mensagem vegana e a incoerência da comunidade vegana. Um boicote composto de indivíduos que não têm ideia do que estão boicotando, e que não podem ou não querem transformar seu boicote numa demanda pública coerente e coletiva, não é tanto assim um boicote.

Segundo e mais importante, recusar-se a tolerar a exploração animal APENAS nas nossas dietas, deixa muito espaço para consentimento em nossos outros comportamentos sociais. Por exemplo, a afirmação que fazemos ao comer alegremente em locais onde animais estão mutilados e mortos em todo o nosso redor é muito mais problemática, pela perspectiva dos direitos dos animais, que consumir laticínios ou ovos na privacidade de nossos lares. Poucos serão convencidos que cada um dos pobres indivíduos estendidos num prato de jantar é uma vítima de assassinato, quando defensores nominais dos direitos dos animais riem e jantam jovialmente enquanto os corpos torturados das vítimas estão sendo rasgados em pedaços. Consumir laticínios privadamente em casa, ao contrário, não tem virtualmente nenhum impacto social; na verdade, mesmo se outros estão presentes, a maioria das pessoas nem mesmo conectam laticínios com a morte de um animal. Contudo o veganismo perversamente condena o segundo ato, e não diz nada sobre o primeiro.

Em outros contextos ativistas, nós claramente reconhecemos que rejeitar produtos da exploração não é suficiente; também rejeitamos práticas, princípios e pessoas exploradoras. Uma ativista pelos direitos das mulheres não seria levada a sério se ela conversasse agradavelmente com seus amigos íntimos enquanto eles estupram e batem em suas esposas. Uma ativista pelos direitos dos homossexuais nunca poderia manter credibilidade se ela rejeitasse a homofobia de forma abstrata, mas se recusasse a dizer uma palavra pelos direitos dos homossexuais quando aqueles ao seu redor ridicularizam a homossexualidade como desvio ou crime. Uma ativista pelos direitos civis invariavelmente falharia em provocar um debate sério sobre o racismo se ela própria se recusasse a confrontar com algo além de súplicas amigáveis aqueles que torturaram e mataram negros.

Quando comparamos o movimento dos direitos dos animais com o ativismo por direitos humanos, em suma, começamos a ver as inumeráveis maneiras pelas quais estamos reforçando a cultura da opressão de espécie em nosso cotidiano. Devemos mesmo usar termos como bife ou carne, ou devemos estar horrorizados com palavras que significam preconceito, tortura e assassinato? Devemos ter amigos que apoiam a matança de indivíduos inocentes, ou devemos estar com as vítimas contra aqueles que as estão brutalizando? Devemos estar sempre alegres, pacientes, e compreensivos quando falamos sobre o sofrimento profundo dos nossos irmãos animais, ou devemos exigir um fim imediato para o holocausto animal e forçar um confronto de convicções?

As respostas a essas questões não são tão óbvias quanto muitos de nós consideramos inicialmente. Independente do que concluirmos sobre os detalhes, o mais importante em geral é que não são principalmente as nossas dietas que foram deformadas por nossa cultura especista, mas sim nossas convicções sociais e políticas. E em vez de defender os animais como consumidores, precisamos defender os animais na totalidade de nossas vidas sociais e políticas.

Em resumo, precisamos parar de tratar os direitos dos animais como uma preferência pessoal, e mais como um movimento social e político. Precisamos reconhecer que todo ato silencioso de consentimento, que racionalizamos como uma questão de “conveniência”, “decoro”, ou “mediação”, é uma traição aos indivíduos cujos corpos brutalmente torturados estão gritando para nós os defendermos. E mais importante, precisamos falar e agir com a urgência política e a clareza retórica que seriam os resultados naturais se fossemos nós que tivéssemos as cabeças a serem cortadas.

Até fazermos isso, ninguém – nem mesmo outros ativistas – levará essa causa a sério, e mesmo autoproclamados progressistas continuarão a responder à nossa mensagem com riso e zombaria.35

Gandhi desafiou seus companheiros ativistas a dar suas vidas e corpos para resistir àqueles que prejudicariam inocentes. Podemos não ter a coragem de Gandhi, para estar resolutamente entre um opressor e sua vítima, para receber a lâmina ou o tiro no lugar de nossos amigos não-humanos. Mas a coragem vem em pequenos passos – e para o movimento dos direitos dos animais, o primeiro passo é oferecer umas poucas palavras em nome de um pobre cordeiro, quando seu cadáver torturado estiver sendo rasgado em pedaços bem diante de nós.

Para mais sobre nossas contribuições sociais e políticas para a infraestrutura do abuso de animais, ver:

http://files.meetup.com/482977/Social%20and%20Political%20Veganism%20Part%201.pdf

Mordida 6: O veganismo como justiça social não tem evidência nem teoria.

Estou consciente que muitos objetam a severidade da minha linguagem; mas não existe motivo para a severidade? Eu vou ser tão duro quanto a verdade, e tão inflexível quanto a justiça.

-William Lloyd Garrison, editorial de inauguração do The Liberator (1831)

Todas minhas alegações anteriores seriam irrelevante, entretanto, se pudéssemos identificar alguma base factual ou teórica para o papel central do veganismo no movimento dos direitos dos animais. Podemos?

Como base factual, houve alguma vez um movimento de justiça social que foi precedido por um movimento de consumo de massa? Os ativistas antiescravistas pediram às pessoas para boicotar o algodão e o tabaco, e esperar que um movimento antiescravista vigoroso fosse impulsionado a partir de um “consumismo livre de algodão”? Os ativistas pelos direitos civis criaram uma economia paralela de “alternativas livres de segregação”, e esperaram que as decisões de compra das pessoas iriam introduzi-las na militância da igualdade racial? Os ativistas pelos direitos dos homossexuais focaram sua atenção em promover produtos gay-friendly, e esperar que isso de alguma forma levasse a um fim das instituições e ideias homofóbicas?

Ou, em todos esses casos, a ação dos consumidores foi uma preocupação terciária – útil talvez como parte de uma campanha específica, mas nunca a estratégia central do movimento?

O paralelo histórico mais próximo do veganismo, em movimentos de justiça social anteriores, é o fracassado programa da “colonização africana” do movimento antiescravista no início do século XIX. Os colonizacionistas sugeriram que o problema com a escravidão era simplesmente que os indivíduos pró-escravidão não tinham “boas alternativas” à escravidão. Portanto eles se recusaram a culpar alguém pela brutalidade da escravidão; ela foi descrita como um problema institucional, cultural e sistêmico em vez de um crime individual. A colonização dos negros para a África, combinada com sua substituição por trabalho livre, foi pensada ser a solução para o problema. Reduzindo a população negra da América, fornecendo uma substituição para o seu trabalho, e mostrando aos brancos que uma sociedade livre de escravidão não levaria ao caos, os colonizacionistas alegaram que essa “instituição peculiar” desapareceria gradualmente.

Na verdade, a colonização é agora justamente vista como um movimento corrupto, racista e moralmente falido que foi, quando muito, um obstáculo fundamental para a verdadeira libertação dos escravos.36 Ao focar a atenção em “alternativas”, a colonização simplesmente distraiu a atenção da injustiça inerente da escravidão. Ao desacreditar a escravidão apenas como um problema institucional, ela conseguiu comprometer qualquer tentativa de condenar os indivíduos responsáveis. E ao lembrar interminavelmente os ativistas que a libertação dos escravos viria apenas “gradualmente”, a colonização esvaziou qualquer tentativa de construir um movimento mais vigoroso e baseado em princípios. De fato, até ativistas “imediatistas” como William Lloyd Garrison e Frederick Douglass propuserem explicitamente destruir o movimento da colonização, e atacarem o programa de despovoamento colonizacionista como racista e fútil, o movimento antiescravistas estava emperrado em ponto morto, ou pior.37

Os paralelos entre a colonização e o veganismo são impressionantes. O veganismo pretende ser a favor da libertação animal. O veganismo luta pela redução da população das vítimas como solução para sua matança e seu sofrimento. O veganismo oferece alternativas livres de crueldade àqueles que desejam evitar a violência “gratuita”. O veganismo fala interminavelmente sobre as instituições e sistemas que brutalizam os animais, enquanto ignora os indivíduos que perpetuam essas instituições e sistemas. O veganismo constantemente nos adverte para sermos amigáveis, pacientes e compreensivos com aqueles que escravizam e torturam nossos amigos animais, porque a libertação virá “gradualmente” e só quando os tiranos verem a “conveniência” em acabar sua opressão. E não é surpreendente que, como a colonização, o veganismo tenha falhado.

Mesmo se você achar essa analogia histórica em particular inconvincente, além disso, temos uma poderosa evidência factual bem diante de nós com o caso da Índia, onde 70% dos vegetarianos do mundo residem atualmente, e onde se encontram cidades inteiras compostas por vegetarianos éticos.38 Se os direitos dos animais são impulsionados a partir de um movimento e uma comunidade alimentares, esperaríamos que a Índia estivesse na linha de frente dos direitos dos animais. Na verdade, o consumo per capita de carne está crescendo firmemente na Índia (~40% nos últimos 20 anos), tal como no resto do mundo.39 E como os indianos são expostos a diferentes tradições culturais e alimentares, estão abandonando suas alimentações vegetarianas a favor de estilos de vida mais “modernos”.40

Algumas pessoas podem achar esses exemplos e anedotas irrelevantes. Argumentos empíricos têm menos valor, afinal, quando estamos falando de um assunto complexo como mudanças sociais. E pode ser que existam diferenças factuais significativas entre o movimento dos direitos dos animais e movimentos anteriores de justiça social que justifiquem a importância estratégica de atividades de consumo para a libertação animal. Existem razões teóricas, então, para aprovar o veganismo como estratégia do movimento?

Uma distinção comum que as pessoas fazem é que a opressão dos animais é mais penetrante que a opressão combatida por ativistas anteriores, e que portanto precisamos de um “degrau” vegano para a sociedade alcançar o patamar dos direitos dos animais. Esta é uma reivindicação curiosa, dado que tanto a escravidão quanto a segregação impactavam diretamente uma porção da economia muito maior que a opressão dos animais, e tiveram um significado ainda maior para os sistemas sociais e políticos de seu tempo.41 Além disso, mesmo se a opressão dos animais fosse mais penetrante, ela não é tão profundamente enraizada. Isto é, há relativamente poucas pessoas cujos sustendo e identidade dependem inteiramente de oprimir animais. E pesquisas em ciência política sugerem que isso deve tornar o movimento dos direitos dos animais um movimento mais fácil que, por exemplo, o antiescravista.42 É muito mais difícil opor-se a um interesse político estreito e intenso do que a um difuso, porém fraco.

Outra alegação é que o veganismo é necessário porque ninguém se juntará ao nosso movimento enquanto suas condutas de consumidores forem inconsistentes com os direitos dos animais. A primeira coisa a notar sobre essa alegação é que os humanos raramente, ou nunca, são consistentes e racionais. Daniel Kahneman ganhou um Prêmio Nobel, por exemplo, por seu trabalho em expôr as contradições e preconceitos penetrantes na tomada de decisão por humanos.43 A segunda coisa a dizer é que o próprio veganismo está repleto de contradições. Lembre-se novamente que a exploração animal satura toda a nossa economia. Instalações agrárias, produção de energia e fabricação de bens de consumo veganos envolvem violência em massa contra animais. Terceiro e por fim, mesmo se as condutas que descrevemos como veganismo forem necessárias para o ativismo eficaz, por motivos de consistência, isso de forma alguma implica que devemos lutar por essas condutas como o objetivo central. Nossa meta final deve ser defender os animais, não atingir as condições comportamentais necessárias para defender os animais. Um movimento que foca puramente em “precondições” nunca atingirá sua meta final.

Poderíamos continuar aqui interminavelmente, examinando justificativas para o movimento vegano. Mas o ponto principal é que um proponente do veganismo precisa ter algum entendimento do quanto atividades de consumo podem levar à libertação animal. Ao analisar a literatura sobre movimentos sociais – das descrições materialistas sobre a pobreza relativa44, à política de identidade construtivista da nova teoria dos movimentos sociais45 – é incrivelmente difícil encontrar algum quadro conceitual que encaixasse uma estratégia de consumismo vegano. Pelo contrário, apesar de suas várias diferenças, as teorias de movimento social existentes incluem quase invariavelmente um número de elementos comuns:

  • Uma visão do mundo claramente diferente da que existe no momento

  • Estágios iniciais de formação de comunidade e socialização por trás dessa visão

  • Aumento dos sentimentos de ressentimento, e subsequente radicalização, dentro da comunidade do movimento

  • Confronto direto e polarizado com os oponentes dominantes da visão coletiva

  • Cascata ideológica que leva à reversão das normais morais e legais anteriores

O veganismo, longe de encaixar-se em qualquer desses elementos, compromete-os ativamente. Por outro lado, ao ler sobre direitos dos homossexuais46, sufrágio feminino47, antiescravidão48, ou direitos civis49, vemos indivíduos que estão firmemente à parte do pensamento convencional explorador, e que se tornam cada vez mais sonoros e inflexíveis em sua rejeição à injustiça e à opressão. Isso, e não a “mediação”, “compaixão” ou “compreensão” do ativismo vegano, são os ingredientes dos quais movimentos sociais são feitos.

Sobremesa e café

O arco do universo moral é longo mas curva-se em direção à justiça.

-Martin Luther King Jr., Convenção do décimo aniversário da SCLC, 1967

Está na hora de terminar nossa refeição. Resumindo, o veganismo, longe de ajudar os animais, é um enorme problema para o movimento dos direitos dos animais. Se queremos defender os animais, então devemos parar de chamar nós mesmo de veganos; parar de pedir para os outros serem veganos; e mesmo parar de usar a palavra vegano. Quando perguntarem, devemos declarar que nossa luta é por igualdade, justiça e liberdade – não por uma alimentação baseada em plantas.

Muito do que está escrito aqui é desafiador. E muito disso, você provavelmente rejeitará, se você é um típico defensor dos direitos dos animais. Minha esperança, entretanto, é que mesmo se você achar essas ideias estridentes e abrasivas, você buscará aprender mais – para testar suas intuições contra uma análise crítica factual e conceitual.

E se você fizer isso, eu encorajaria você a esquecer tudo o que sabe sobre o movimento dos direitos dos animais, e, em vez disso, a aprender com o exemplo de movimentos mais bem-sucedidos. A campanha pela libertação animal está respirando com ajuda de aparelhos. O número de ativistas pelos animais não está crescendo; o consumo per capita de carne aumenta todos os anos; formas novas e grotescas de abusar os animais são descobertas sem nenhuma preocupação por eles; e as organizações “de direitos dos animais” mais destacadas (como a PETA) são apoiadoras sem remorso da matança de animais inocentes.50 Esses não são sinais de um movimento próspero. E se você não aproveitar nada desse artigo, pelo menos use-o como um pretexto para pesquisar mais sobre movimentos de justiça social bem-sucedidos. A vida de até mesmo um animal inocente justificaria muito mais que isso.

Quando você examinar a história e a lógica de movimentos sócias bem-sucedidos mais cuidadosamente, entretanto… quando você ler sobre a mudança imediata no movimento antiescravista na década de 1830, catalisada pela corajosa condenação da escravidão por Garrison em 1831; o radicalismo dos ativistas por direitos civis, desencadeada pelo ato de uma valente mulher em 1955; a militância dos ativistas pelos direitos dos homossexuais no início da década de 1970, inspirada pelas Rebeliões de Stonewall em 1969, um ponto de vista comum surgirá da névoa intelectual – uma visão de justiça e confronto, e não de compaixão e consumismo.

Precisamos formar uma comunidade e um movimento que possam assumir o manto desses corajosos ativistas da história e buscar uma visão de justiça social. Estou confiante que você concordará, se olhar mais cuidadosamente para o progresso que eles alcançaram, e compará-lo como a relativa futilidade do movimento moderno pelos direitos dos animais. E quando fazer isso, estou igualmente confiante que você irá, como eu, boicotar o veganismo.

Com o que nosso movimento deveria parecer, se não estiver focado no veganismo? Ver o artigo “Why we protest” na seção de arquivos da página da Coalition for Animal Rights: www.tinyurl.com/chicagocoalition.

Versão original em inglês: http://www.images.pythagoreancrank.com/boycott_veganism.pdf

Notas:

1 http://www.time.com/time/time100/heroes/profile/pankhurst01.html

2 http://www.animal-rights-library.com/texts-m/singer03.htm

3 Por exemplo ver: http://www.goveg.com/effectiveAdvocacy_personal.asp

4 http://www.animalaid.org.uk/h/n/NEWS/pr_factory/ALL/217

5 Quanto da produção é reduzida depende do que os economistas chamam de “elasticidade da oferta.” Se a oferta é extremamente inelástica, por exemplo, por causa dos altos custos irrecuperáveis, então a produção pode não cair muito, se cair.

6 Deixe-me usar uma história pessoal para ajudar a ilustrar o problema. Uma de nossas queridas amigas de família, quando eu era criança, era uma menina com uma grave doença neurológica chamada esclerose múltipla. Ela está numa cadeira de rodas desde a infância, e mal consegue mover os braços. Ela está presa na jaula de seu próprio corpo, e o sofrimento tornou-se parte de sua vida. Ela é hospitalizada periodicamente – qualquer tipo de infecção cotidiana pode induzir uma insuficiência respiratória ou cardíaca, porque sua saúde é muito frágil. Lembro de visitar minha amiga quando era criança, quando ela estava ligada a um aparelho respiratório. Ela não podia fazer nada além de abrir seus olhos e acenar com a cabeça. Eu estava sobrecarregado com tristeza, medo e piedade, e depois perguntei a meus pais por que Deus faria coisas tão terríveis a uma menina tão bela e inocente (fui criado como cristão evangélico).

No entanto, apesar de seu sofrimento profundo, minha amiga vive uma vida significativa – e muito mais longa do que os médicos previram (atualmente ela está com mais de trinta anos). E em nenhum momento alguém sugeriu que ela estaria melhor morta, ou que o mundo seria um lugar melhor se ela não existisse. Longe disso, apesar de suas deficiências e seu sofrimento, sua vida tem valor. Ela pode conversar com as pessoas quando não está doente; ela tem desejos e consciência; e ela tem esperança e sonha com uma cura antes que sua doença tome sua vida. Sua vida é digna de ser vivida, apesar de sua profunda deficiência.

O ponto em que quero chegar é que uma vida de sofrimento não é uma vida sem valor. Há coisas boas que vêm com a vida, assim como coisas ruins, para todos nós. E dizermos que a vida de alguma outra pessoa é sem sentido (que se não existisse haveria muito menos mal no mundo!) porque envolve muita dor ou desconforto, é uma afronta à sua autonomia e à sua dignidade individual.

Devemos dizer o mesmo em relação a pessoas não-humanas. Sim, elas podem sofrer e morrer, se nascerem em granjas industriais. Mas não podemos dizer que o mundo seria melhor sem elas, pela mesma razão que não posso dizer que o mundo seria melhor sem minha amiga com esclerose múltipla. Todo humano com EM, e todo pobre porquinho numa granja industrial, é um indivíduo de valor inestimável, que tem tanto direito à existência e às graças deste mundo, quanto o resto de nós.

Isso não é dizer que não devemos lutar para acabar com o terror, a exploração e a injustiça – seja ela vinda de origens naturais ou políticas. Devemos absolutamente fazer tudo que pudermos para ter certeza que toda menina que sofre com EM, e todo porco numa granja industrial, possa um dia correr feliz e livre. Mas é uma afronta fundamental aos seus direitos e à sua dignidade como indivíduos dizermos que estamos salvando-os ao garantir que não existam.

7 Ver “Climate Change and Animals,” Hsiung and Sunstein.

8 http://www.nofoiegras.org/zogby.html

9 http://en.wikipedia.org/wiki/Framing_(social_sciences)

10 http://findarticles.com/p/articles/mi_qn4155/is_20060915/ai_n16739073

11 http://www.chicagotribune.com/news/local/southsouthwest/chi-0510260246oct26,1,463405.story

12 http://en.wikipedia.org/wiki/Donald_Watson

13 http://www.veganforum.com/forums/showthread.php?t=13282

14 http://www.vegfamily.com/forums/showthread.php?t=666

15 http://freegan.info/

16 http://vegan.meetup.com/11/messages/boards/view/viewthread?thread=3295339#10082095

17 http://www.satyamag.com/oct06/singer.html

18 http://www.satyamag.com/mar04/bauston.html

19 http://www.foodandwine.com/articles/why-vegetarians-are-eating-meat

20 http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/articles/A50147-2005Mar19.html

21 http://vegan.meetup.com/11/messages/boards/view/viewthread?thread=3390611

22 http://europe.real.com/guide/bang/2/9268.html

23 http://www.veggieboards.com/boards/showthread.php?t=13473

24 http://www.ninaplanck.com/index.php?article=vegan_babies

25 Num estudo do movimento holandês pela paz, Klanderman descobriu que “identidades coletivas diferentes, aproximadas por associações de organizações diversas, prediziam a deserção de participantes do movimento.” (como relatado em Nelson Pichardo. New Social Movements. Annual Review of Sociology).

26 O professor de Stanford Douglas McAdam foi um dos primeiros a demonstrar empiricamente o efeito de vínculos sociais, tanto positivos como negativos, no ativismo, Ver aqui:

http://files.meetup.com/160880/Social%20ties%20and%20activism.pdf. Muitos outros acadêmicos o seguiram ao examinarem o papel de redes sociais na explicação de percepções diferenciadas em movimentos sociais entre apoiadores nominais. Ver, por exemplo:

http://files.meetup.com/160880/Social%20networks%20and%20individual%20perceptions%20–%20Swiss%20case.pdf.

27 http://dangerousintersection.org/?p=276

28 Para um exemplo, ver: http://www.veganoutreach.org/enewsletter/20050420.html

29 Ver Vegetarianism: Movement or Moment?, pg. 14-18. http://www.temple.edu/tempress/titles/1542_reg.html.

30 http://www.telegraph.co.uk/news/main.jhtml?xml=%2Fnews%2F2003%2F07%2F09%2Fnveg09.xml

31 Ver: http://en.wikipedia.org/wiki/William_Lloyd_Garrison.

Garrison escreveu no seu editorial de inauguração:

Estou consciente que muitos objetam a severidade da minha linguagem; mas não existe motivo para a severidade? Eu vou ser tão duro quanto a verdade, e tão inflexível quanto a justiça. Sobre este assunto, não desejo pensar, falar, ou escrever com moderação. Não! Não! Diga a um homem cuja casa está em chamas para dar um alarme moderado; diga-lhe para resgatar moderadamente sua esposa das mãos do estuprador; diga à mãe para libertar gradualmente seu bebê do fogo em que ele caiu; – mas não me peçam para usar moderação numa causa como a presente. Estou falando seriamente – não falarei de maneira ambígua – não pedirei desculpas – não recuarei uma polegada sequer – E SEREI OUVIDO. A apatia das pessoas é suficiente para fazer toda estátua saltar de seu pedestal, e para acelerar a ressurreição dos mortos.

Fingem que estou atrasando a causa da emancipação com a grosseria da minha invectiva e a precipitação das minhas medidas. Essa acusação não é verdadeira. Sobre essa questão da minha influência, – humilde como ela é – ela é sentida nesse momento num grau considerável, e deve ser sentida nos próximos anos – não perniciosamente, mas beneficamente – não como uma maldição, mas como uma benção; e a posteridade dará testemunho que eu estava certo. Desejo agradecer a Deus, que ele permita-me desconsiderar “o temor do homem que armará laços,” e dizer sua verdade em sua simplicidade e poder.

32 All on Fire, Mayer, p. xiv.

33 Ver, por exemplo, Of One Blood: Abolitionism and the Origins of Racial Equality. O trecho relevante está em: http://files.meetup.com/482977/Social_Sources_of_a_Mass_Movement.pdf

34 Para ver como a justiça de uma causa influencia seu crescimento e eficácia, ver o artigo do renomado filósofo político Joshua Cohen, The Arc of the Moral Universe. http://web.mit.edu/polisci/research/cohen/the_arc_of_the_moral_universe.pdf

35 http://www.youtube.com/watch?v=Dn-wTQLniYg

36 Ver, por exemplo, Of One Blood: Abolitionism and the Origins of Racial Equality, Goodman, UC Berkeley Press. http://www.pbs.org/thisfarbyfaith/people/frederick_douglass.html

37 Para uma poderosa denúncia da colonização, ver o artigo de William Lloyd Garrison, Thoughts on African Colonization, disponível em: http://www.iath.virginia.edu/utc/abolitn/abeswlgbt.html. Sobre Frederick Douglass, ver: http://www.pbs.org/thisfarbyfaith/people/frederick_douglass.html e http://www.iath.virginia.edu/utc/abolitn/abar03at.html.

38 Em branco no original (N.T.)

39 http://earthtrends.wri.org/searchable_db/index.php?theme=8&variable_ID=193&action=select_countries

40 Dois de meus colegas de pós-graduação, por exemplo, foram criados como vegetarianos na Índia, mas rapidamente adicionaram carne às suas alimentações quando vieram para o ocidente. Quando tentei falar-lhes sobre o veganismo e os direitos dos animais, nenhum pareceu particularmente interessado. “É uma cultura diferente aqui”, um disse. “Acabei de descobrir que gosto de comer carne”, disse o outro. Nenhum desses indivíduos era estúpido. Pelo contrário, ambos eram brilhantes, progressistas e tinham a mente aberta. Eles sabiam exatamente como os animais eram produzidos nos Estados Unidos. Sua dieta de infância simplesmente não era um motivo suficiente para adotar os direitos dos animais. E quando tornou-se inconveniente manter essa dieta, eles a abandonaram, não por maldade para com os animais, mas simplesmente porque eles estavam mais focados em suas próprias vidas que numa causa social radical.

41 Para uma discussão da economia da escravidão por um economista vencedor do Prêmio Nobel, ver Time on the Cross, de Robert Fogel. Fogel demonstra que, longe de ser retrógrada, a escravidão era um sistema econômico muito avançado e produtivo que forneceu benefícios enormes tanto para o sul quanto para o norte dos EUA. Também era um sistema em crescimento.

42 Sobre ação coletiva, ver: http://economics.about.com/cs/macroeconomics/a/logic_of_action.htm.

43 http://en.wikipedia.org/wiki/Daniel_Kahneman

44 http://www.blackwell-synergy.com/doi/abs/10.1111/j.1533-8525.1982.tb02218.x?journalCode=tsq

45 http://en.wikipedia.org/wiki/New_social_movements

46 http://files.meetup.com/160880/Gay%20rights%20movement%20–%20Politics%20of%20Gay%20Rights.pdf

47 http://www.time.com/time/time100/heroes/profile/pankhurst01.html

48 http://files.meetup.com/160880/Antislavery_Appeal.pdf

49 http://files.meetup.com/160880/Lessons%20from%20the%20civil%20rights%20movement.pdf (ler as seções sobre direitos civis, pular o resto)

50 http://www.nokillnow.com/PETAIngridNewkirkResign.htm

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