Apelo à natureza no combate à homofobia

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Esta imagem tem sido usada em redes sociais para combater a homofobia, entretanto ela comete sérios erros. Um deles é empregar a falácia do apelo à natureza. Segundo a linha de raciocínio empregada, caso a homossexualidade não fosse algo natural, ela seria errada; e se a homofobia fosse encontrada em outras espécies, se fosse natural, então ela estaria justificada. Outro erro é usar como argumento o fato da homossexualidade ser importante para a preservação das espécies. Neste caso, é claro que o ato de adotar filhotes órfãos ou abandonados é algo bom, porque os filhotes são beneficiados com isso. Agressões, assassinatos e coerção sexual, incluindo estupros e infanticídios, são práticas naturais e podem ser úteis para a preservação de espécies, e isso de forma alguma pode justificar essas práticas contra quem quer que seja. Estes equívocos, cometidos nos debates sobre a homofobia, o sexismo e o especismo, apenas trazem confusão aos debates e precisam ser abandonados juntamente da própria ideia de Natureza. A homofobia e outras formas de discriminação são erradas porque usam critérios irrelevantes (como a sexualidade, a espécie ou a raça) para considerar moralmente alguns indivíduos abaixo de outros, e porque os indivíduos afetados são prejudicados ao serem discriminados.

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Assassinatos altruístas

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Irrelevância da origem dos danos

Ao rejeitar o especismo e dar consideração moral aos animais não-humanos por causa de sua senciência, é preciso levá-los em conta independentemente da origem dos danos que sofrem, então deve ser dada atenção tanto aos que sofrem por ação humana quanto àqueles que sofrem na natureza. É razoável pensar onde a situação deles é ruim ou boa, então onde é preciso agir e com que prioridade e, por fim, buscar exemplos de ações que podem reduzir o sofrimento desses animais. Isso é importante porque animais não-humanos existem em números enormes, e costumam sofrer muito intensamente.

Nesse contexto, alguns autores buscam fazer, a partir de pontos de vista consequencialistas, estimativas da utilidade ou valor líquido analisando diversas consequências de alguma prática ou da vida de alguns indivíduos. Em suma, o valor líquido é positivo quando o bem-estar prevalece e negativo quando predomina o sofrimento; isso se aplica aos diferentes processos que afetam os animais de alguma forma (seja na natureza, na criação para o abate, ou em decorrência da agricultura, urbanização, etc.). Exemplos dessa abordagem aparecem em “Towards welfare biology: Evolutionary economics of animal consciousness and suffering” de Yew-Kwang Ng; “Questions of Priority and Interspecies Comparisons of Happiness” de Oscar Horta; “Crop Cultivation and Wild Animals” de Brian Tomasik.

Embora essas estimativas envolvam grandezas difíceis de mensurar, podem ser feitas considerando valores conservadores e não exagerados e permitem portanto uma boa noção (muitas vezes até mesmo otimista ou moderada) da situação que os animais passam. Dessa forma, mesmo com esses valores conservadores, a conclusão comum desses estudos é que um número enorme de animais, a grande maioria deles, está em péssima condição, em destaque um imenso número de invertebrados, devido à sua alta população e probabilidade de morte prematura e dolorosa, por causas como predação, doenças, parasitismo, inanição, condições meteorológicas, etc. Baseado nisso, por ser muito severa a situação em que estes animais estão, alguns autores defendem corretamente a necessidade e a urgência de, além de combater a exploração dos animais por humanos, apoiar intervenções para reduzir o sofrimento desses animais. Essas intervenções podem ser divididas em dois grupos. Primeiro, aquelas que buscam melhorar a vida selvagem, em resumo, através do uso de tecnologias, monitoramento e prestação de auxílio aos animais; destaca-se a defesa de David Pearce a esta ideia. Segundo, intervenções que buscam não melhorar a vida, mas reduzir a população dos animais selvagens (a contracepção sendo um exemplo), já que fazer isso é relativamente mais fácil e rápido que as medidas do primeiro grupo, e porque o sofrimento agregado pode ser estimado como sendo proporcional às populações dos animais. Contudo, em alguns casos envolvendo o segundo grupo, há divergências sobre as medidas que devem ser escolhidas. Continuar lendo

Referências

Para acabar com a ideia de Natureza, e reatarmos com a ética e a política – Yves Bonnardel

Quem vai à caça não perde o lugar – Yves Bonnardel

Contra o apartheid das espécies – Yves Bonnardel

Porque eu não sou ecologista – David Olivier

Sobre a natureza – John Start Mill

Salvando o coelho da raposa – Steve Sapontzis

A visão de que o fato de uma prática ser natural justifica essa prática – Luciano Carlos Cunha

Sobre o bem de tudo e de todos – Cátia Faria

Magnus Vinding – A ilusão conservacionista

A natureza não escolhe – David Olivier

Nonmoral Nature – Stephen Jay Gould

O inferno – Juliano Zabka

A predação, símbolo da Natureza – Yves Bonnardel

Coelhos sem documentos – Yves Bonnardel

Debunking the idyllic view of natural processes: population dynamics and suffering in the wild – Oscar Horta

Zoopolis, Intervention, and the State of Nature – Oscar Horta

Why we should give moral consideration to sentient beings, rather than living beings – Animal Ethics

Why we should give moral consideration to sentient beings rather than ecosystems – Animal Ethics

Why we should give moral consideration to individuals rather than species – Animal Ethics

Medicine vs. Deep Ecology – Brian Tomasik

God’s utility function – Richard Dawkins

O Projeto Abolicionista –  David Pearce

Appeal to nature – Wikipedia

Logical fallacy: Appeal to nature – Fallacy Files

Nature Sucks

Editado em 11 de janeiro de 2016