Magnus Vinding – A Ilusão Conservacionista

A ilusão conservacionista1

 

Antes de seguirmos adiante com o problema do sofrimento na natureza, vale a pena primeiro voltar nossa atenção à postura ética predominante quando se trata da natureza, a saber, a ética da conservação de espécies. Pois, a fim de fazermos avançar nossa postura ética em relação aos indivíduos não-humanos na natureza, precisamos primeiro desmantelar e limpar as ideias confusas e equivocadas que atualmente dominam nossas opiniões sobre este tema. E com certeza não há nesse contexto ideia mais dominante e mais confusa que a ideia de que a missão moral mais importante que temos em relação à natureza é tentar conservar as espécies que habitam a Terra no momento.

A ética da conservação de espécies na verdade é uma ética bizarra. É uma concepção que defende que a conservação das populações de certos tipos de seres é mais importante que o bem-estar dos indivíduos nessas populações. Ela essencialmente equivale ao rebaixamento dos indivíduos não-humanos a meros meios para o fim de manter certo tipo de status quo na natureza. Existem dois problemas óbvios com esse ponto de vista, um deles é que, em primeiro lugar, não existe nenhum status quo na natureza. O “estado natural” da natureza que nos pedem para conservar nunca foi conservacionista, em primeiro lugar, e muito menos ao nível de espécies, já que 99,9% de todas as espécies que já viveram na Terra estão extintas agora.2 Diferentes espécies surgiram e desapareceram constantemente. Esse tem sido o estado natural das coisas por toda a história da vida, o que implica que, ironicamente, nosso esforço para conservar a natureza – o que normalmente significa a natureza como ela é neste momento, ou talvez como era algumas décadas atrás – é de certa forma um dos mais antinaturais.3

O segundo problema, que é maior ainda, com a ética da conservação de espécies é que ela é fortemente antiética e especista, o que deve ser óbvio se novamente mudarmos nosso foco para humanos. Pois no caso de humanos, nunca seriamos tentados a gastar recursos para tentar conservar certos tipos de pessoas – por exemplo, uma certa raça de seres humanos – visto que fazer isso claramente significaria um fracasso em considerar outros humanos como fins em si mesmos, e falhar em entender o objetivo central da ética. Pois o que importa são os indivíduos sencientes e seu bem-estar, não a preservação de certos tipos de indivíduos. Tudo isso é senso comum ético óbvio quando se trata de humanos, é claro, mas quando se trata de seres não-humanos, transformamos uma ética profundamente especista em um dogma (i)moral inquestionável, e quase universalmente louvado, uma ética que ignora indivíduos, e que assume o pior tipo de visão instrumental e eugênica dos animais não-humanos.

Portanto a rejeição do especismo claramente requer que abandonemos a ética da conservação de espécies e que percebamos que não é mais justificável lutar para conservar espécies de animais não-humanos do que para conservar raças humanas – que a conservação de tipos de indivíduos, sejam humanos ou não-humanos, simplesmente não é o objetivo de nenhuma postura ética sensata. E na verdade é bizarro que pareçamos mostrar profunda preocupação pela existência de alguns seres, orangotangos e ursos panda, por exemplo, só porque eles pertencem a uma espécie ameaçada, enquanto ao mesmo tempo apoiamos diretamente a exploração e o sofrimento de outros seres, como vacas e galinhas, só porque eles pertencem a outra espécie.4 Nosso especismo dificilmente poderia ser mais claro. Um especismo que a ética da conservação de espécies não só falha em questionar, mas que ela ativamente reforça e perpetua.

Mas a conservação de espécies é necessariamente especista? Algumas espécies não são necessárias para a saúde dos ecossistemas?”

Sim, ter a conservação de espécies como um fim em si mesmo é necessariamente especista. Não é um objetivo ético justificável se levamos seres de outras espécies a sério em termos morais, apenas seu bem-estar o é, e todo o resto é e deve ser instrumental a isso, nunca a conservação de espécies por si só. Novamente, visar a conservação de certas raças humanas por motivos de conservação é necessariamente racista e antiético? Tal esforço para conservar raças por motivos de não perder “biodiversidade” reflete uma concepção ética adequada dos outros seres? Espero que essas questões respondam a si mesmas.

Quanto à saúde dos ecossistemas, essa pergunta apenas ecoa o especismo da conservação de espécies. Podemos defender a preservação ou a reintrodução de grupos de seres humanos porque eles contribuem para alguma concepção que possamos ter de biodiversidade ou de um ecossistema sadio?5 Claramente não, visto que tal concepção, novamente, corresponde a nada mais que uma concepção instrumental e desrespeitosa dos seres humanos em vez de uma concepção que considera seres humanos como fins e si mesmos. E exatamente o mesmo se aplica aos animais não-humanos: não podemos defender dar maior prioridade ao que eles podem acrescentar em termos de “biodiversidade” do que damos a eles e ao seu bem-estar. Fazer isso não é nada mais que especismo em ação, ainda que sob o disfarce de uma atitude ética que é amplamente louvada e adotada. Precisamos antes de tudo começar a nos preocupar com seres sencientes e seu bem-estar, não importa a que espécies eles pertencem, e não importa o quanto gostaríamos que eles contribuíssem à “biodiversidade.”6

Notas:

1  Texto publicado originalmente como capítulo do livro Speciesism: Why It Is Wrong, And The Implications of Rejecting It.

2  Raup, D. (1992). Extinction: Bad Genes or Bad Luck? New York: W.W. Norton, p. 10.

3  A ideia de uma natureza imutável, que fundamenta a ética da conservação, denuncia as raízes religiosas dessa ética atualmente inquestionável.

Alguém pode objetar que os seres humanos atualmente estão causando extinções de espécies a uma taxa antinatural, contudo essa objeção levanta as seguintes questões: 1) o que “natural” significa nesse contexto? 2) o que torna normativa uma suposta taxa “natural” de extinção? (E deve ser notado que extinções em massa já foram vistas no passado, embora isso na verdade seja irrelevante, como essa questão destaca, afinal: o que torna o “natural” normativo?)

4  Com certeza a preocupação que mostramos por animais como orangotangos e ursos panda raramente é verdadeira, visto que raramente nos preocupamos com orangotangos ou pandas como indivíduos. Quando se trata de animais não-humanos, por algum motivo transformamos o “tipo” no objeto de preocupação moral, especialmente na natureza, onde parece que, como Oscar Horta notou: “[…] animais não-humanos são normalmente considerados não como indivíduos, mas como meras exemplificações vivas de uma espécie (por causa de atitudes especistas generalizadas).” (Horta, O., 2010. What Is Speciesism?. Journal of Agricultural and Environmental Ethics. 23, pp. 243-66). E, para voltar nossa confusão ética de volta à vivissecção, é claro que se um dado grupo de animais não-humanos estivesse muito ameaçado, nós não realizaríamos a vivissecção neles. Ursos Panda não estão em perigo de serem submetidos à vivissecção, e o mesmo provavelmente seria verdadeiro para ratos e camundongos se eles ao menos fossem raros. Isso, e não seu sofrimento impensável, parece ser a única coisa que poderia salvá-los dos horrores extremos que impomos a eles, o que revela perfeitamente nossa confusão ética nesse assunto.

5  E é interessante notar que um “ecossistema sadio” é muito mais um conceito folclórico. A natureza estritamente não tem nenhuma saúde e nenhuma preferência. O mesmo não é verdadeiro para seres sencientes.

6  O confronto de ideais entre a conservação da natureza e a proteção do bem-estar dos seres sencientes é sem dúvida um dos mais importantes de todos, visto que o vencedor desse confronto não apenas determinará o futuro da vida senciente na Terra, mas poderá determinar o futuro da vida no universo inteiro, ou pelo menos nas partes que pudermos alcançar, e, ou fará com que ela seja livre do sofrimento, ou deixará de fazer isso.

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