David Pearce – Um Estado de Bem Estar para Elefantes. Custos e aspectos práticos da assistência médica ampla a elefantes africanos livres

 

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Um Estado de Bem Estar para Elefantes

Estudo de Caso de Gestão Compassiva

INTRODUÇÃO

Jainismo High-Tech

Em poucas décadas, o crescimento exponencial do poder dos computadores vai garantir que cada metro cúbico do planeta seja computacionalmente acessível a monitoramento remoto, microgerenciamento e controle. Subordinado à biotecnologia e à nanorobótica, esse crescimento das capacidades de vigilância e controle apresenta enormes riscos e enormes oportunidades. Num cenário distópico, essas tecnologias contribuem para combates armados avançados, ou poderiam ser usadas para sustentar uma ditadura orwelliana. Alternativamente, essas tecnologias poderiam proporcionar a gestão compassiva de todo o mundo vivo.

O Jainismo High-Tech do tipo necessário para proteger os interesses dos pequenos mamíferos, sem mencionar o bem-estar dos vertebrados marinhos e (finalmente) membros de outros filos, ainda está décadas distante. A revolução da CRISPR na edição genômica tem apenas uns poucos anos. A nanotecnologia, e em particular a nanorobótica, ainda está em sua infância. Os obstáculos para um mundo sem crueldade não são meramente técnicos. Mesmo quando as tecnologias de intervenção se tornarem baratas e prontamente disponíveis, o viés do status quo presente nos seres humanos pode postergar indefinidamente a implementação de uma biologia compassiva. A ideologia da biologia da conservação está profundamente enraizada. Assim, intervenções germinativas ambiciosas para “reprogramar” espécies tradicionais de predadores, orquestrar a regulação da fertilidade de todas as espécies, e garantir o bem-estar de toda a senciência provavelmente não estão no horizonte por um século ou mais. Contudo, esse tipo de escala temporal não significa que discussões sobre intervenção/gestão ética sejam apenas uma filosofia inútil. Pelo contrário, algumas formas de gestão compassiva são tecnicamente viáveis agora mesmo. Muitos dos piores casos, e mais urgentes moralmente, de sofrimento de animais selvagens são os mais acessíveis à intervenção; e também os menos custosos de remediar. Continuar lendo

Magnus Vinding – A Ilusão Conservacionista

A ilusão conservacionista1

 

Antes de seguirmos adiante com o problema do sofrimento na natureza, vale a pena primeiro voltar nossa atenção à postura ética predominante quando se trata da natureza, a saber, a ética da conservação de espécies. Pois, a fim de fazermos avançar nossa postura ética em relação aos indivíduos não-humanos na natureza, precisamos primeiro desmantelar e limpar as ideias confusas e equivocadas que atualmente dominam nossas opiniões sobre este tema. E com certeza não há nesse contexto ideia mais dominante e mais confusa que a ideia de que a missão moral mais importante que temos em relação à natureza é tentar conservar as espécies que habitam a Terra no momento.

A ética da conservação de espécies na verdade é uma ética bizarra. É uma concepção que defende que a conservação das populações de certos tipos de seres é mais importante que o bem-estar dos indivíduos nessas populações. Ela essencialmente equivale ao rebaixamento dos indivíduos não-humanos a meros meios para o fim de manter certo tipo de status quo na natureza. Existem dois problemas óbvios com esse ponto de vista, um deles é que, em primeiro lugar, não existe nenhum status quo na natureza. O “estado natural” da natureza que nos pedem para conservar nunca foi conservacionista, em primeiro lugar, e muito menos ao nível de espécies, já que 99,9% de todas as espécies que já viveram na Terra estão extintas agora.2 Diferentes espécies surgiram e desapareceram constantemente. Esse tem sido o estado natural das coisas por toda a história da vida, o que implica que, ironicamente, nosso esforço para conservar a natureza – o que normalmente significa a natureza como ela é neste momento, ou talvez como era algumas décadas atrás – é de certa forma um dos mais antinaturais.3

O segundo problema, que é maior ainda, com a ética da conservação de espécies é que ela é fortemente antiética e especista, o que deve ser óbvio se novamente mudarmos nosso foco para humanos. Pois no caso de humanos, nunca seriamos tentados a gastar recursos para tentar conservar certos tipos de pessoas – por exemplo, uma certa raça de seres humanos – visto que fazer isso claramente significaria um fracasso em considerar outros humanos como fins em si mesmos, e falhar em entender o objetivo central da ética. Pois o que importa são os indivíduos sencientes e seu bem-estar, não a preservação de certos tipos de indivíduos. Tudo isso é senso comum ético óbvio quando se trata de humanos, é claro, mas quando se trata de seres não-humanos, transformamos uma ética profundamente especista em um dogma (i)moral inquestionável, e quase universalmente louvado, uma ética que ignora indivíduos, e que assume o pior tipo de visão instrumental e eugênica dos animais não-humanos. Continuar lendo